“O CNE é muito forte, porque buscamos sentido às coisas”

João Armando Gonçalves, presidente do Comité Mundial do Escutismo, esteve presente na cerimónia de abertura do Acanac. Apesar de ser Chefe Mundial dos escuteiros, em Portugal sente-se muito bem “acolhido”, não escondendo o nervosismo que foi falar perante mais de 21 mil escuteiros do seu país a gritar o seu nome.

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Estamos aqui no Acanac, mas tens a experiência de várias atividades nacionais noutros países. Como é que se compara com a nossa realidade?
Há uma coisa que não muda, que é o entusiasmo da rapaziada a viver uma coisa destas, isso não muda. E isso é meio caminho andado para o sucesso destas atividades, que têm de ser vistas como uma plataforma de encontro e descoberta de que existem outros para além do que é a nossa paróquia ou comunidade. E aí acho que é o mesmo.

E no tipo de atividades?
No tipo de atividades mais físicas e radicais também pouco difere. O que difere mais é o fundo que nós damos às atividades. Há quem diga que nos escuteiros basta fazermos hikes e acampamentos sem preparação, que o aspeto educativo vem por arrasto. Nós damos uma intenção educativa diferente. Quando vamos para uma atividade, temos uma consciência educativa diferente, daquilo que as atividades vão desenvolver mais a criança ou jovem num aspeto ou no outro. Acho que a intenção educativa é maior no que nós fazemos aqui, e toda a base que é fornecida pelo nosso carácter católico é uma diferença grande, e até se compararmos com outras associações católicas, a diferença é maior. No geral, esta base e quase necessidade de buscar esses conteúdos dá-nos conforto interno, faz sentido. Aqui há uma diferença grande. Não digo que o CNE seja o único no mundo a fazer…

Mas é daqueles que o faz bem?
Sim, acho que é daqueles que o faz bem. E isso agarra mais o pessoal, o que pode parecer surpreendente. Quando falamos mais em adolescentes e jovens adultos, agarra muito esta ideia de chegarmos e nos sentirmos bem. Uma das perguntas que tenho feito quando vou a todo o lado é “porque é que gostam de ser escuteiros?”, e há uma resposta invariável que aparece sempre, que é “eu nos escuteiros posso ser eu próprio, sem arriscar a que me estejam a criticar”. Acho que nos nossos acampamentos temos esse fundo nas coisas, e isso dá um conforto interior nos jovens. Isso é surpreendente à luz do que vimos ouvindo dizer que os jovens não querem saber, que estão noutra, e secalhar não…

20170801_NP_JOAO-ARMANDO_03Precisam é da proposta certa?
Eu acho que sim. Precisam é que se toque nos botões exatos. Uma coisa muito simples. Quando vinha do Moot, e estavam lá 5000 pessoas, ouvi comentários de uma amiga brasileira a dizer “vejam como é possível ter 5000 jovens entre os 18 e os 25 a divertirem-se à bruta sem uma pinga de álcool, sem uma grama de nada, sem saltos altos e maquilhagem”. Como é que é possível trazer todas estas pessoas, ainda por cima de várias partes do mundo… é este tipo de conforto interior, de estar bem e poder divertir-se saudavelmente que nós oferecemos. E é nisso que acho que o CNE é muito forte, porque buscamos sentido às coisas, e embrulhamos as atividades nesse sentido.

Seres aplaudido por uma multidão já é normal em encontros destes, mas sê-lo “em casa” tem outro sabor…
Quando o presidente cá esteve, perdi muitas vezes o cortejo porque muitas pessoas paravam para falar comigo, tirar fotos… é muito gratificante, e mesmo ontem à noite, eu dizia aos meus colegas que não se preocupassem, porque eu já tinha falado para 35 mil pessoas no Jamboree do Japão e 22 mil não era grave… mas é diferente. Falar para os portugueses é diferente… é um bocadinho arrepiante, e é muito bom saudarem-te e sentires-te acolhido. Sobretudo é isso, sentires-te acolhido e sentires que elas têm orgulho naquilo que eu acabo por representar, isso dá-me uma satisfação muito grande.

A presença do Presidente ajudou a acentuar a importância do evento e do próprio CNE no país…
Eu acho que sim. Tem dois tipos de efeito. Para a autoestima da associação, porque desde o acampamento de 1973 que não vinha cá um presidente da República, e é importante para o CNE percebermos que são bons o suficiente para o Presidente vir cá e estar connosco. Do ponto de vista externo também é bom, porque leva as pessoas a questionarem-se “epá, quem são estes tipos a quem o presidente dedicou tantas horas da sua agenda atribulada?”, e é uma oportunidade muito grande que espero que possamos continuar a aproveitar nos próximos tempos.

Estiveste com ele, inclusive num jantar com uma patrulha. Como é que ele estava a viver isto?
Estive a jantar com ele num subcampo de uma patrulha, e essa foi a experiência mais engraçada, porque no passeio não consegui minimamente acompanhá-lo a ser invadido por toda a gente (risos). Mas esses minutos em que estivemos a jantar com a patrulha foram muito engraçados, porque foram os miúdos que cozinharam, ele é que esteve a servir e estava animadíssimo com a patrulha de exploradores. Ele gosta das pessoas, toda a gente sabe, mas estava super feliz pelo reconhecimento que as gerações mais novas lhe estavam a dar. Ele era praticamente uma rock star, com toda esta miudagem que o chamava. Ele estava muito contente e impressionado com a capacidade organizativa e de mobilização do CNE para um evento deste género.

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Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Nuno Perestrelo, Ricardo Perna

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2 thoughts on ““O CNE é muito forte, porque buscamos sentido às coisas”

  1. Que bom existir “gente tão boa” a provar que é possível ser jovem, estar num ENORME grupo e não se embriagar nem se drogar!!!Se os adultos soubessem apontar caminhos com o próprio exemplo… talvez fosse diferente!
    PARABÉNS CNE

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  2. Pequena Nota:Chefe Mundial do escuteiros só existiu um : Baden Powell, que foi aclamado com esse titulo,pelos escuteiros no primeiro Jamboree mundial realizado em Londres no ano de 1920. Esses titulo desapareceu, o João Armando é Presidente do Comité Mundial, até meados do mês em curso, como o foram os antecessores e serão os seus sucessores. O Presidente do Comité Mundial é eleito de 3 em anos na primeira reunião do membros Comité Mundial, logo após a eleição destes pela Conferência Mundial. refira-se aliás que o mediatismo actual deste cargo se deve sobretudo às mudanças operadas pela revolução tecnológica nos meios de comunicação, com a massificação do uso da internet.
    Saudações escutistas.

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