“Educamos mais com aquilo que somos, do que com aquilo que possamos dizer ou fazer”

Este 23º Acanac contou com a presença em campo de D. Joaquim Mendes. O Presidente da Presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família quis acompanhar os vários momentos daquela que foi, até hoje, a atividade mais participada do Corpo Nacional de Escutas (CNE).  A ocasião permitiu uma conversa para saber o que a Igreja espera daquele que é, entre nós, o maior movimento de juventude.

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Joaquim Mendes, o que motiva um bispo a estar vários dias em campo a acompanhar uma atividade de escuteiros?
Essencialmente três motivos… o primeiro, porque sou salesiano e os jovens são o campo prioritário da missão salesiana e o nosso carisma atrai-nos para aí.
Em segundo lugar, porque a Comissão Episcopal onde estou, Laicado e Família, tem esta área do acompanhamento dos jovens. A par da Pastoral Juvenil, Pastoral do Ensino Superior, encarrega-se também do acompanhamento do CNE. E eu, nestes últimos anos, tenho sido o responsável pelo acompanhamento do CNE. Portanto há uma ligação natural, para além da carismática, por questões pastorais.
E em terceiro lugar, já na caminhada do Sínodo dos Jovens, que nos desperta ao acompanham, a sabermos o que é que os jovens pensam, as suas expetativas, os seus sonhos.
Estou também aqui neste espaço para aprender, porque todos aprendemos uns com os outros. Este é um espaço muito rico porque, para além dos jovens, encontramos aqui um conjunto enorme de gente e de voluntários…. percebemos que há muita generosidade e muita entrega, e há muita sensibilidade e dedicação a estas crianças e jovens.

Considera que é importante a presença do bispo junto deles?  A participar nas suas atividades?
Sim, mas a nossa presença é discreta… mas eu penso que sim, é o nosso lugar natural. O lugar do bispo é, como diz o Papa, junto das ovelhas, apanhar-lhes o cheiro… é esta pastoral da proximidade que é essencial.
Nós falamos tanto de os pais acompanharem os filhos, estarem presentes e participarem… mas depois, há a grande família, que é a Igreja, nós somos a família mais alargada, e é  importante que os pastores, e não só o bispo, mas também os padres, estejam onde estão as pessoas e participem daquilo que é a sua vida, as suas atividades.

Concorda que o escutismo tem um grande potencial evangelizador? Para muitos rapazes e raparigas, o escutismo é uma porta de entrada na Igreja…
Sem dúvida. Como sabe, o escutismo é um movimento de fronteira, e é muitas vezes através dele, que muitas crianças, adolescentes, jovens e famílias, têm o primeiro contacto com a Igreja e com a experiência religiosa. É aí que se abrem ao mistério de Deus à revelação divina, ao caminho da fé. O escutismo proporciona, para além de acompanhar a iniciação cristã, que é feita nas comunidades paroquiais, esta experiência de comunidade, de igreja, num pequeno grupo, que depois se alarga à comunidade maior.
É um movimento com um potencial muito grande de evangelização, além de que é o maior movimento juvenil eclesial que temos em Portugal.

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Os imaginários, os temas que enquadram as atividades, devem comportar sempre uma proposta de vivência espiritual?
Sim. Este projeto chama-se “Abraça o futuro”, e é um desafio dentro daquilo a que o Papa chama de ecologia integral. Portanto, o imaginário da Criação está aqui muito presente, na terra, na água, no fogo e no ar… E este desafio às diferentes Secções, (…) é uma sensibilização para construir um futuro melhor, para abraçar o projeto de Deus sobre a Criação, mas também sobre a natureza, a economia, sobre as relações humanas por aí fora… e entra aqui este imaginário que abraça isto tudo. Portanto, proporciona aos escuteiros, às crianças, adolescentes e jovens, de acordo com as suas faixas etárias, uma vivência, uma experiência através de jogos.
Tive também a oportunidade de participar em alguns jogos que eles fizeram e que lhes despertavam a sensibilidade para tornar este mundo um pouco melhor. É uma forma de agir que os sensibilizou a continuar esta experiência nos seus agrupamentos, nas suas patrulhas e por aí fora.
Há aqui toda uma ecologia integral, uma educação que toca as várias áreas, e que é facilitada pelo imaginário e pelo modo como está organizado o próprio Acanac.

No CNE, Agrupamento e Paróquia são duas realidades interligadas…
O habitat natural do escutismo é a paróquia, é a instância onde se instalam os agrupamentos. O escutismo é um movimento eclesial, é um movimento católico. Portanto, integra-se na comunidade, é uma comunidade de comunidades… há vivências no escutismo, tal como há vivências noutros movimentos que existam na paróquia. A paróquia é, portanto, esta comunhão de comunidades.
O ambiente natural do escutismo é a paróquia, é ali que ele cresce com a comunidade, é também uma experiência intergeracional que é muito bonita e muito importante.
Temos que crescer nesta dimensão da paróquia como família, como família de famílias… Portanto, o lugar natural do escutismo é a comunidade cristã.

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Não faz sentido um Agrupamento com uma agenda própria, nem uma comunidade que ignore o seu Agrupamento…
Numa paróquia há um Conselho Pastoral Paroquial, e nele estão representados os diversos movimentos. Logo, está ali o representante do Agrupamento. O padre, por norma, é o Assistente do movimento e, se a paróquia se reúne em Conselho Pastoral Paroquial, integra a diversidade das propostas. O escutismo tem uma identidade, tem um projeto, tem de ter uma espiritualidade e, como tal, integra-se na paróquia, articula-se com os outros movimentos. É esta articulação e diversidade que, na comunhão, nunca é um obstáculo, mas antes, uma riqueza.

O que espera de um Assistente na relação com o seu Agrupamento?
O que eu tenho a dizer, e o que eu peço, é que acompanhem. Eu sei que hoje não se pode pedir tudo ao pároco, ele tem uma multiplicidade de tarefas e é muito difícil chegar a tudo, mas há momentos que são importantes.
A participação nas reuniões da Direção, porque o Assistente é um dirigente do CNE e, portanto, tem assento na Direção do Agrupamento. É ali que se decide e fazem as opções… se o Assistente está, dá o seu contributo, integra na paróquia, ajuda a discernir, ajuda na fidelidade à identidade do movimento que ele deve conhecer. E depois, sempre que possível, participar nas atividades de campo que eles têm. Acompanhar e estar próximo. Acompanhar na Direção, porque, se acompanha de perto, não surgem conflitos.
Mas também acompanhar os jovens, é uma oportunidade para os conhecer, conhecer as famílias, e construir comunhão na comunidade a que ele preside.

Hoje a reorganização paroquial pode levar um pároco a assumir mais do que uma paróquia. Esta situação pode significar a fusão de Agrupamentos?
Nesses casos, as comunidades mantêm o seu agrupamento. A reorganização paroquial leva a que um padre pode assumir duas paróquias e, é normal, cada uma das paróquias ter o seu Agrupamento. A fusão entre Agrupamentos ocorre quando o número de elementos diminui… conheço alguns casos em que, algumas secções, para realizar atividades, têm de se juntar a outro agrupamento. E se falamos de uma comunidade que foi envelhecendo, o natural é esse agrupamento fundir-se com outro. São coisas que acontecem de forma natural.Há paróquias que têm um agrupamento com um número significativo de escuteiros, outras têm menos, outras podiam ter mais, mas não têm dirigentes. E nisto, é necessário ter alguma ponderação no que toca à seleção dos dirigentes porque é preciso ter idoneidade, é preciso ter maturidade humana, alguma maturidade cristã, porque é um movimento educativo. Nós educamos mais com aquilo que somos, do que com aquilo que nós possamos dizer ou fazer.

O aprofundamento da vida cristã é determinante na formação dos dirigentes?
Sim. E está contemplado na organização do escutismo.

Têm de assumir também a formação na fé junto dos jovens e não ficar dependentes apenas do Assistente…
Os dirigentes são pessoas que encarnaram na sua vida o projeto escutista, portanto, também a dimensão cristã. Hoje o padre não é o único formador, pelo contrário, é muito importante que os dirigentes sejam gente coerente, quanto possível, entre a fé e a vida. Sejam adultos significativos, sejam uma referência para os jovens… e os jovens têm isso em conta, eles são sensíveis porque têm uma estima grande pelos chefes quando estes são figuras significativas, são crentes que assumem a sua identidade cristã, a sua fé, que assumem também as suas fragilidades. Nós não somos deuses, somos pessoas. Erramos, mas também temos de ter a humildade diante dos jovens de, quando erramos, admitir que errámos. O dirigente é alguém que caminha com, mas aqui no escutismo há também uma autoeducação, uma educação recíproca… os jovens educam-nos a nós e nós também educamos os jovens, educar significa caminhar juntos

O próprio dirigente tem o dever de aprofundar a sua fé?
Hoje os jovens colocam-nos muitos desafios, fazem-nos muitas perguntas, muitas questões e, como diz S. Pedro, nós devemos estar preparados para responder e dar razões da nossa fé.

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Os casos irregulares e a “importante” participação no Sínodo dos Jovens

Joaquim Mendes, o Papa Francisco sugeriu compreensão para com alguns casos apelidados de “exclusões” sob o ponto de vista litúrgico e pastoral… Como lida e Igreja e deve agir o CNE perante estes casos?
O critério é que a pessoa é fonte de moral em situação. E aquilo que o Papa nos diz na sua encíclica, é que, devemos, caso a caso, conhecer e fazer o discernimento… isto não pode ser preto e branco… é caso a caso. E temos de o fazer com delicadeza, com misericórdia, mas também com verdade. Ter sempre presente que o escutismo é um movimento educativo, e os dirigentes são educadores e um educador deve ser referência. Se um educador tem muitas fragilidades, se eu vou propor valores que não sou capaz de viver, tenho que ter alguma prudência, algum bom senso.
Aqui, a meu ver, é que, diante dessas fragilidades, caso a caso, devemos discernir, ver com misericórdia, mas também com verdade, ajudar as pessoas a fazer o seu caminho. E, quando nós temos fragilidades, temos de as assumir e assumir as consequências das nossas fragilidades, das opções que fizemos.

Este procedimento é semelhante para os dirigentes do CNE e os adultos que querem aderir e servir no movimento como dirigentes?
Bem… quem está no movimento e houve algum desmoronamento espiritual na sua vida, é preciso ver isso. Agora, quem pretende entrar… por respeito às crianças, aos adolescentes e aos jovens… não é a mesma coisa estar no CNE ou estar nas Conferências de S. Vicente de Paulo, estar na Legião de Maria, ou no Banco alimentar… não é a mesma coisa. Este é um movimento educativo e o educador tem de ter idoneidade, maturidade humana, maturidade cristã, e tem, minimamente, de viver os valores do projeto escutista e do projeto cristão.

Mas a sensibilidade perante esta questão não é uniforme… há caminho a fazer neste sentido?
Sim, há trabalho a fazer e, há lobbies… no escutismo mundial há lobbies… nós temos que ir contra a corrente. Temos de ser fiéis e firmes em relação às nossas convicções, aos nossos valores e ao projeto que temos para com as crianças e por amor a elas.
Queremos criar jovens felizes, bem estruturados, capazes de construir um projeto de vida belo que lhes dê sentido, que os enriqueça, que os enobreça.

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Deveria haver uma colaboração mais próxima entre o CNE e a Pastoral Juvenil?
Nós consideramos jovens o período entre os 16 e os 29 anos, que é também a faixa etária que é proposta para o trabalho do Sínodo dos Jovens. Recordo que o escutismo está dentro da Pastoral Juvenil. O Assistente nacional participa no Conselho Nacional da Pastoral Juvenil, e, em relação ao Sínodo, nós enviámos o questionário em que o Papa quer saber como acompanhamos os jovens. Neste sentido, cada agrupamento, tal como outros movimentos que se dedicam ao acompanhamento dos jovens, deve dar o seu contributo neste inquérito.O CNE está dentro da Pastoral Juvenil. Inclusivamente, nós constituímos agora um grupo de trabalho para recolher as respostas do Sínodo e, nesse grupo de trabalho, dado o número significativo de jovens que o CNE tem, nessas sete pessoas que integram o grupo de trabalho, está o Assistente Nacional do CNE.
Relativamente à Pastoral Juvenil, é importante o contributo dos caminheiros que estão na faixa etária dos 18 aos 22 anos e, muitos destes caminheiros já se preparam para ser dirigentes. Portanto, este contributo do CNE é muito importante, porque são jovens com alguma experiência pastoral e de trabalho com outros jovens.

Os escuteiros já peregrinaram para Fátima no âmbito do Centenário das Aparições, mas no horizonte surge agora o Jubileu dos Jovens, também em Fátima.
Essa organização do Jubileu dos Jovens é do Santuário. A Pastoral juvenil participa como parceiro, e esta participação dos jovens será dinamizada em cada diocese, pelo diretor diocesano e pelos animadores. Naturalmente que os jovens do CNE também participarão com os outros jovens. Foi isto que ficou combinado na última reunião do Conselho Nacional da Pastoral Juvenil, que é dinamizado em cada diocese, pelo diretor diocesano e pelos animadores.

Este 23.º Acanac bateu todos os recordes de participação. Isto é um sinal da vitalidade do CNE?
Exatamente. É uma prova da sua vitalidade. Isto significa que os jovens são sensíveis a propostas que vão ao encontro daquilo que vai ao encontro da sua sensibilidade e da sua condição juvenil.

Entrevista: Henrique Matos
Fotos: Inês Baptista

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