“É muito importante que o Acanac possa constituir uma alavanca de desenvolvimento local”

O chefe nacional do CNE, Ivo Faria, faz, em entrevista à Flor de Lis, um balanço muito positivo do acampamento e espera que esta sede de mudança por um mundo melhor tenha expressão no regresso dos escuteiros aos seus agrupamentos e à sua vida quotidiana.

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Que balanço é que se faz deste Acanac que agora termina?
O balanço é claramente positivo. Acho que conseguimos congregar estes escuteiros todos num único espaço e a viverem todos em uníssono em torno do mesmo tema, do mesmo imaginário e eu acho que isso é algo que nos enriquece bastante, sermos capazes de termos, na particularidade de cada secção, algo que nos una. Acho que o acampamento foi fator de crescimento e não falo só do numero, foi de facto pela riqueza dos jogos, das dinâmicas e das atividades que eles fizeram. Espero que lhes dê inspiração e energia para que eles em casa possam prosseguir. 

O imaginário foi elogiado em larga escala por várias pessoas, desde o D. Joaquim Mendes ao João Armando, que referiu ser essa uma mais-valias do CNE. Concordas?
É uma riqueza que de facto nós temos. Tenho participado em diversas atividades internacionais e o que se nota é que de uma forma geral quer aquilo que tu promoves junto dos miúdos em termos de preparação do pano de fundo do imaginário, quer as dinâmicas de abertura, de campo, quer as atividades em si trazem de facto uma riqueza impressionante porque eles conseguem ligar as coisas umas com as outras mais facilmente. Quando damos por nós, os miúdos já não estão no centro náutico a andar dentro de um balão de plástico, estão a fazer de conta que são um peixe que estão a progredir numa água que tem pouco oxigénio, e isso faz toda a diferença.

Diferença para eles?
Para eles e para nós. Do ponto de vista da eficácia e do alcance pedagógico daquilo que estamos a tentar promover, é bastante diferente. Acho que vai sendo tempo de nós tentarmos acolher cá uma atividade internacional para também tentar partilhar uma coisa que acho que é uma excelente prática que nós temos.

A diminuição da pegada ecológica num acampamento foi visível nomeadamente nos supermercados, na separação do lixo, embora continuemos a não conseguir resolver o problema dos autocarros. Mas foi uma preocupação que foi de certo modo alcançada? Apesar dessas questões…
Foi, há um esforço enorme nesse sentido, nós estamos infelizmente num espaço que tem condições climatéricas que são quase extremas para esta altura do ano, o que dificulta tu conseguires teres um pouco mais de sucesso em algumas coisas, como é o gasto nos combustíveis para fazer as deslocações ou para os geradores. Se nós tivéssemos um espaço mais fresco, se calhar mais junto à costa ou mais em cima de alguma lagoa, conseguiríamos ser mais eficazes nesse ponto.
No tema do supermercado acho que demos um salto gigantesco, com um ou dois pontos que podemos melhorar no futuro. Um deles é tentar assegurar um mecanismo que permita que os miúdos possam gastar o saldo remanescente no cartão na loja escutista por exemplo, ou doá-lo as instituições e fazer disso também um trabalho pedagógico.
A separação do lixo já se conseguiu fazer alguma coisa. A 2.ª secção tinha um jogo que tinha muitas atividades de sensibilização e de treino para estes temas da ecologia e da defesa do ambiente, trazerem as árvores que agora vão trocar… todo o acampamento acho que nesse aspeto funcionou muito bem.

20170806_rp_encerramento_2016E o que é que fica como desafio para melhorar?
Eu acho que na parte da logística e infraestruturas vamos ter que reforçar a capacidade do campo em termos de água, secalhar colocando pontos de rega automática, não sei, para que o campo, não a parte das estradas, mas o campo propriamente dito, possa ser um pouco mais fresco. Acho que precisamos de colocar mais pontos sanitários e de casa de banho, e começar a tentar que as equipas de segurança trabalhem não só fazendo vigia de determinados pontos estratégicos, mas andem pelo campo para tornar a função mais abrangente.
Outra coisa que melhoraria era as visitas a campo. Devíamos ter visitas a campo, mas com um conceito diferente, um conceito de inscrição de um grupo, de 20, 30, 40 pessoas que nos visitem com um guia que lhes dá a conhecer os espaços e o que está a acontecer e lhes dê uma explicação sobre o acampamento, e essas visitas estarem disponíveis para entidades e agrupamentos que não estejam inscritos e que nos quisessem visitar.

Não menosprezando o que se fez no acampamento, a parte fácil era esta. A difícil agora é conseguir que os miúdos peguem nisto e o transportem para a sua vida normal…
Eu acho que as cerimónias de encerramento de cada um dos campos centraram-se precisamente nisso. Eu estive no campo da 2.ª e eu acho que eles saíram de lá com alguma energia em relação àquilo que podem fazer em suas casas e tenho a certeza que nos outros campos vai acontecer o mesmo.
Ontem mesmo iniciámos aqui uma reunião da Junta Central que tinha alguns pontos de agenda nossos, daqueles mais habituais, e convidámos representantes das quatro secções para estarem connosco reunidos. Discutimos de uma forma muito prática algumas iniciativas ou medidas que se podem levar a efeito ao nível central, regional ou local e que ajudem a que essa agenda para a sustentabilidade não tenha acabado quando sairmos daqui, mas que continue nas nossas sedes.

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O acampamento fica muito marcado pela visita do Presidente da Republica a campo, que deu uma visibilidade muito grande em termos de comunicação social, alem do impacto das redes sociais. Agora, como é que se constrói em cima disso?
No que toca ao Senhor Presidente, aproveitámos obviamente a presença dele para lhe falar em alguns projetos e intenções que temos. A nossa ideia era tentar reunir com ele em setembro e a resposta e o acolhimento dele foi “não em setembro, que eu a 27 de agosto já estou de volta”. Então vamos marcar já e, portanto, vamos obviamente tentar reunir com ele e falar-lhe e alguns projetos, de algumas ambições para ver como ele nos pode também ajudar. Ele manifestou-me uma disponibilidade muito grande da parte dele para abraçar alguns dos projetos que nós temos e algumas das iniciativas que queremos promover na nossa associação. Em termos de comunicação, eu acho que nós agora precisamos de dar um passo importante, que é começarmos a poder despertar o interesse na comunicação social não só nacional, mas particularmente regional e local. O interesse em cobrir atividades escutistas feitas localmente é muito importante. O objetivo é termos a cada 5 anos uma cobertura espetacular como esta que nós tivemos, como termos no intervalo entre esses 5 anos centenas de coberturas de atividades mais pequenas e que também ajudem a dar corpo ao que se faz nas bases do nosso escutismo, que de facto é o mais importante que nós fazemos.

Toda esta visibilidade é uma responsabilidade acrescida que este movimento de pessoas e cobertura mediática coloca sobre o CNE?
Sim, nós estamos a tentar trabalhar ao nível dos nossos jovens a criação de uma equipa de porta-vozes, de representantes jovens, porque achamos que preferencialmente devem ser eles a representar-nos em alguns desses órgãos de juventude. No que tem que ver com a representação na participação em fóruns ou em grupos de trabalho, onde seremos nós dirigentes a representar a associação, estaremos em novembro na assembleia plenária da conferência episcopal, e poderemos conversar com os senhores bispos portugueses sobre algumas das preocupações e sobre o rumo que pretendemos ou que sentimos que a associação poderá seguir em termos até de revisão estatutária.
Temos de continuar a fazer e acentuar de apoiar as nossas regiões para que elas possam fazer o mesmo com os seus agrupamentos, preparando-as e dotando-as de meios para que possam fazer uma comunicação mais contextualizada , mais coerente, com uma imagem adequada àquilo que nós queremos transmitir. Isso só se faz se nós formos capazes de facto também de disseminar e de apoiar, e isso é um trabalho nosso.

20170805_rp_ivo_faria_2368Qual a importância do papel de advocacy?
É muito importante nós encontrarmos pessoas que, pelas diferentes responsabilidades que desempenham na nossa sociedade, nos ajudem obviamente a transmitir o valor daquilo que nós fazemos. Tivemos aqui em campo alguns parceiros que nos vieram visitar, alguns colaboraram em oficinas e ateliês que tivemos e é muito importante. Para dar um exemplo, uma das entidades que cá esteve e que tem bastante know how e centros de competências na área florestal ficou combinado que nos iriam ajudar a ultrapassar alguns desafios que nós temos de reflorestação de alguns centros escutistas. Tudo isto são coisas que, quando temos um acampamento desta magnitude e tantos parceiros que nos visitam, potenciam depois parcerias que se espera possam produzir um efeito de propagação que permita ter mais parceiros e apoios disponíveis para os agrupamentos para os seus projetos locais.

Continua a ser possível ter um acampamento desta magnitude preparado quase exclusivamente por voluntários? E com este crescimento, continuar a apostar no voluntariado para apoio aos agrupamentos no dia-a-dia?
Eu acho que, no nosso dia-a-dia, precisaremos inevitavelmente de ter uma base não voluntária e profissional que nos apoie. Eu acho que o grupo de colaboradores que nós temos, e que está em torno dos 30, me parece relativamente adequado. Aquilo que nós precisamos é de dar mais efetividade a esse apoio, mas só o conseguiremos fazer se formos capazes de criar processos mais lineares, processos mais simples com o recurso a sistemas de informação e que permitam libertar tempo às pessoas que nós já temos a trabalhar connosco, para que o possam dedicar a outras tarefas que ajudem a que os agrupamentos sintam cada vez mais o nosso apoio.

Muitos dos agrupamentos poderão beber do que viveram aqui neste Acanac para perceber como melhorar e que apoio o CNE lhes pode dar?
Eu acho que um Acanac é uma atividade maior do que aquilo que são os nossos agrupamentos, núcleos e regiões. Se as coisas estiverem organizadas e correrem minimamente bem, como têm corrido felizmente, os nossos dirigentes vão para suas casas com ideias de coisas que viram aqui ser feitas quer a nível de organização central, quer ao nível de quem estava a acampar em seu redor, e os próprios miúdos vão para casa mais exigentes porque fizeram atividades diferentes, coisas que nunca tinham experimentado em casa e eles também começam a pedir isso. Acho que é muito importante que da combinação destas duas forças de o Acanac possa constituir uma alavanca de desenvolvimento local, no registo de “ok, nós agora vamos fazer coisas um bocadinho diferentes parecidas com aquelas que vivemos ali”.

 


 

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna


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